sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mùm "Rhubarbidoo"

O Zen na Cozinha

“A autora nasceu em Belo Horizonte. À beira do fogão de lenha, observava o preparo de guisados com verduras frescas colhidas por sua avó. Naquela cozinha reinava a simplicidade.

Seu primeiro contato com os princípios da culinária Shôjin Foi no Mosteiro Morro da Vargem, onde os monges comiam o que era produzido ali. Naquela cozinha reinava a criatividade.

Em 1997 foi ao Japão e lá teve a oportunidade de trabalhar na cozinha de um Mosteiro Budista, onde a culinária era puramente Shôjin, com um requinte inigualável. Naquela cozinha reinava a pura arte.”

texto de orelha do livro:
O Zen na cozinha: princípios da culinária Shôjin.
de Monja Gyoku Em
São Paulo: Sustentar, 2008

O Zen na Cozinha


“Primeiro contato com o Shôjin brasileiro. No Mosteiro Morro da Vargem, no Espírito Santo, os monges comiam o que havia por lá. Arroz plantado no sopé da montanha pela família que ali vivia. Faziam mutirões para ajudar no plantio ou na colheita e recebiam arroz como doação. Mutirão de farinha, mutirão de rapadura. Fruta que tinha muita era jaca.
Às vezes, serviam jaca assada, jaca cozida, jaca à milanesa. Caroço de jaca assado, cozido, torrado e feito farinha. Também tinha muita banana, e a banana sofria modificações, virava passas, torta ou farinha. Os monges também colhiam mel e este era um alimento bastante usado em algumas refeições. Mel com farinha de mandioca, hum!!!
A horta tinha muita verdura. Havia uma plantação de inhame e muitas folhas de taioba. Tinha milho que virava uma massa de pizza deliciosa, com molho de tomate da horta e queijo produzido ali mesmo com leite da vaca que era criada pelos monges.
Reinava a criatividade. Imagine! O soro do leite misturado com farinha de mandioca resultava numa papa muito saborosa, geralmente temperada com sal e ornamentada com deliciosos e lindos galhos de erva-doce, colhida ali mesmo, bem fresquinha. Esse era o Shôjin estilizado, adaptado à realidade daquele maravilhoso momento do Mosteiro.”

In: Monja Gyoku En. O Zen na cozinha: princípios da culinária Shôjin. São Paulo: Sustentar, 2008

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Alimento para os olhos: Pablo Picasso

O Sorvete - Drummond

“A caminho do cinema, a dois passos dele, na rua principal, está a confeitaria, a cuja porta é grato a gente deter-se, ante as formas caprichosas e coloridas que ali se dirigem simultaneamente a vários sentidos. Certos bolos e cremes, antes de serem degustados pela boca ávida, o são pelo nariz e pelos olhos e, se no-lo permitissem, o seriam pelas mãos, que amariam verificar a maciez, a doçura e a delicadeza da pasta. Único sentido não beneficiado, o ouvido permaneceria alheio a essa fruição geral, se não chegassem até ele os ruídos normais numa casa onde se come, choque de louça no mármore, de metais na louça, pequenos rumores familiares a que se ligam imemorialmente as sensações do paladar, e que tanto contribuem para a composição desse extraordinário prazer de comer.
Estávamos absortos na contemplação ritual, misto de atenção a formas simbólicas, e de sonho em torno de idéias complexas que elas sugeriam – ali, diante daqueles pudins e daqueles roxos, amarelos, solferinos, verdes e róseos montículos de açúcar, geléia, ovo, frutas cristalizadas e invisível manteiga, quando um objeto vulgar, mas insólito no lugar onde se achava, me captou o interesse. Encostado a uma das três portas da confeitaria, do lado da calçada, um quadro-negro propunha-nos os seguintes dizeres em giz branco:

HOJE
Delicioso sorvete de
ABACAXI
Especialidade da casa
HOJE!

A inscrição emocionou-me intensamente, e dei conta a Joel de minha perturbação.
- Você está vendo?
Aparentemente, Joel não se deixara invadir pelo sortilégio das palavras. Sua superioridade!
- ‘Delicioso sorvete de abacaxi...’ Nunca tomei disso.
- Eu também não – respondeu o fortíssimo Joel. – Deve ser porcaria.
Eu sabia que Joel falava da boca para fora, e que a idéia de sorvete, exposta de maneira tão súbita, e tão estranha a ele quanto a mim próprio, não lhe podia ser indiferente, e muito menos repugnante. Maliciosamente, procurava cativá-lo no interesse de uma profunda alteração de nosso programa. A saber: cancelaríamos a sessão de cinema, e com os fundos disponíveis atacaríamos o sorvete de abacaxi.
(...)
O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florezinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma delas, meia esfera de uma substância alva e brilhante... Crianças de cinco anos desprezarão minha narrativa; e já ouço um leitor maduro, que me interrompe: ‘Afinal este sujeito quer transformar o ato de tomar sorvete numa cena histórica?’ Leitor irritado, não é bem isso. Peço apenas que te debruces sobre esta mesa a cuja roda há dois meninos do mais longe sertão. Eles nunca haviam sentido na boca o frio de uma pedra de gelo e, como todos os meninos de todos os países, se travavam conhecimento com uma coisa de que só conhecessem antes a representação gráfica ou oral, dela se aproximando não raro atribuindo-lhe um valor mágico, às vezes divino, às vezes cruel, em desproporção com a realidade e mesmo fora dela; um valor independente da coisa e diretamente ligado a sugestões de som, cor, forma, calor, densidade, que as palavras despertam em nosso espírito maleável... Como posso reconstituir agora tudo o que nós criáramos, para nosso próprio uso, em torno da palavra sorvete, representativa de uma espécie rara de refresco, que às pequenas cidades não era dado conhecer; e cruzada bruscamente com a nossa velha e querida palavra abacaxi, ambas como que envoltas, por uma astúcia do gerente da confeitaria, na seda fina e lisa da palavra ‘delicioso’?
A carga de simpatia e sensualidade com que me atirei – nos atiramos – às meias esferas trazia talvez em si o germe da decepção que logo nos assaltou. O sorvete era detestável, de um frio doloroso, do qual se excluía toda lembrança de abacaxi, para só ficar a idéia de uma coisa ao mesmo tempo pétrea e frágil, agressiva aos dentes e, mais para além deles, a uma região íntima do ser em que está o núcleo da personalidade, sua mais profunda capacidade de gozar e sofrer. Era uma dor universal o que ele espalhava, e tão rápida e difundida como se invadisse no mesmo segundo, por mil filamentos, toda a rede nervosa... Lágrimas subiram-me aos olhos. No rosto de Joel, também o sofrimento se desenhava. (...)
A verdade é que, sem noção alguma de como ingeri-lo, nós pretendíamos absorvê-lo a dentadas, em grandes porções que levavam consigo o pânico de um motor de dentista. O céu da boca era um teto fulgurante de dor: e o pior é que, eu bem o sentia, essa dor era ridícula.
Renunciei antes de Joel à empreitada de amor-próprio; que o garçom e o caixa me matassem, mas não ‘comeria’ mais aquilo.

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. O Sorvete. In: Contos de aprendiz. 1973

Alimento para os olhos: Thea Djordjadze

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

preceito budista

A VIDA DEPENDE DA VIDA.
TODOS COMEMOS E SOMOS COMIDOS.
QUANDO NOS ESQUECEMOS DISSO, CHORAMOS;
QUANDO NOS RECORDAMOS DISSO,
PODEMOS NUTRIR UNS AOS OUTROS.

In: Monja Gyoku En. O Zen na cozinha: princípios da culinária Shôjin. São Paulo: Sustentar, 2008

Alimento para os olhos: Chardin

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Como Água para Chocolate

"Depois desse perscrutador olhar, que penetrava a roupa, já nada voltaria a ser igual. Tita soube na própria carne por que o contato com o fogo altera os elementos, por que um pedaço de massa se converte em torta, por que um peito sem ter passado pelo fogo do amor é um peito inerte, um bocado de massa sem nenhuma utilidade."
In: ESQUIVEL, Laura. Como Água para Chocolate. São Paulo: Martins Fontes, 1993, pág. 55

sábado, 2 de janeiro de 2010

Alimento para os olhos: Samanta Flôor


e mais, muito mais, lindas, aqui

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010!


Que o ano novo seja suculento como um Cézanne!