26 Dezembro 2011

A FORMA DO ESPAÇO


Italo Calvino

As equações do campo gravitacional que relacionam a curvatura do espaço à distriguição da matéria já estão começando a fazer parte do raciocínio comum.

Cair no vácuo como eu caía, nenhum de vocês sabe o que isso quer dizer. Para vocês cair significa tombar, por exemplo, do vigésimo andar de um arranha-céu, ou de um avião que se avaria em vôo: precipitar-se de cabeça para baixo, bracejar um pouco no ar, e logo a terra vem se aproximando e levamos um grande tombo. Pois lhes falo, ao contrario, de um tempo em que não havia embaixo nenhuma terra nem coisa alguma de sólido, nem mesmo um corpo celeste na distância que pudesse nos atrair para a sua órbita. Caía-se assim, indefinidamente, por um tempo indefinido. Afundava no vazo até o limite extremo em cujo fundo é imaginável que se possa afundar, e lá chegando mais abaixo, extremamente longe dali, e continuava a cair para alcançá-lo. Não havendo pontos de referência, não tinha idéia se a minha queda era precipitada ou lenta. Pensando bem, não havia provas sequer de que estivesse de fato caindo: quem sabe estava permanentemente imóvel no mesmo lugar, ou me movia no sentido ascendente; visto que não havia nem em cima nem embaixo, tudo não passava de questões nominais e dava no mesmo continuar pensando que caía, como era natural que pensasse.
Admitindo-se, portanto, que caíssemos, caíamos todos com a mesma velocidade sem qualquer impedimento; de fato estávamos sempre a bem dizer na mesma altura, eu, Úrsula H’x, o tenente Fenimore. Não tirava os olhos de cima de Úrsula H’x porque era muito bonita de se ver, e mantinha na queda uma atitude ágil e descontraída: esperava conseguir alguma vez interceptar o seu olhar, mas Úrsula H’x ao cair estava sempre ocupada em lixar e polir as unhas ou em passar o pente nos cabelos longos e lisos, e jamais voltava o olhar para mim. Para o tenente Fenimore tampouco, devo dizer, muito embora ele fizesse tudo para atrair sua atenção.
Uma vez o surpreendi – pensava que eu não estivesse vendo – a fazer sinais para Úrsula H’x: primeiro batia os dois indicadores estendidos um contra o outro, depois fazia um gesto giratório com uma das mãos, em seguida apontava para baixo. Em suma, parecia aludir a um entendimento com ela, a um encontro para mais tarde, em alguma localidade lá embaixo onde iriam se reunir. Tudo história, sabia muito bem: não havia encontros possíveis entre nós, proque nossas quedas eram paralelas e entre nós mantinha-se sempre a mesma distância. Mas o fato de que o tenente Fenimore metesse na cabeça idéias desse gênero – e procurasse metê-las na cabeça de Úrsula H’x – me enervava; embora ela não lhe desse atenção e até mesmo trombeteasse levemente com os lábios, voltando-se – me parecia não haver dúvidas – para ele. (Úrsula H’x caía revolvendo-se sobre si mesma com movimentos indolentes como se se espreguiçasse no leito e era difícil dizer se um gesto seu se dirigia mais a um que a outro ou se estava gracejando consigo mesma como de costume.)
Eu também, naturalmente, não sonhava com outra coisa senão encontrar-me com Úrsula H’x, mas, dado que em minha queda seguia uma reta absolutamente paralela à sua, pareceu-me fora de propósito manifestar um desejo irrealizável. Decerto, querendo bancar o otimista, sempre restava a possibilidade de, continuando as nossas duas paralelas até o infinito, chegar o momento em que elas haveriam de se tocar. Essa eventualidade bastava para me dar alguma esperança e até mesmo manter-me em contínua excitação. Direi que um encontro de nossas paralelas era algo que eu havia sonhado tanto, em todas as suas particularidades, que agora fazia parte de minha experiência como se já o tivesse vivido. Tudo aconteceria de um momento para o outro, com simplicidade e naturalidade: depois de tanto andarmos separados sem podermos nos aproximas um palmo que fosse, depois de tanto havê-la sentido estranha, prisioneira de seu trajeto paralelo, eis que a consistência do espaço, de impalpável que sempre havia sido, se tornaria mais tensa e amo mesmo tempo mais mole, um espessamento do vazio que pareceria vir não de fora mas de dentro de nós, e nos estreitaria juntos eu e Úrsula H’x (já me bastava fechar os olhos para vê-la à minha frente, num gesto que sabia seu mesmo se diferente de todos os gestos habituais: os braços estendidos para baixo, ao longo do corpo, torcendo os pulsos como se se espreguiçasse e ao mesmo tempo indiciando uma contorção que era também uma forma quase sinuosa de se oferecer), e eis que a linha invisível que eu percorria e a percorrida por ela se tornariam uma linha única, ocupada por uma mistura de mim e dela, na qual tudo o que nela era macio e secreto acabava penetrado por mim, ou melhor, envolvia e, quase direi, sugava tudo aquilo que em mim até ali sofrera a tensão de estar sozinho e separado e enxuto.
Acontece aos sonhos mais belos transformarem-se de repente em íncubos e assim me vinha amiúde à mente que o ponto de encontro de nossas duas paralelas podia ser aquele em que se encontravam todas as paralelas existentes no espaço, e assim iria assinalar não apenas o encontro entre mim e Úrsula H’x mas igualmente – perspectiva execrável! – o do tenente Fenimore. No momento exato em que Úrsula deixasse de me se estranha, um estranho com seus bigodinhos finos e negros se veria compartilhando nossa intimidade numa forma inextricável; esse pensamento bastava para me atirar no mais torturante ciúme: ouvia o grito que nosso encontro – meu e dela – nos arrancava fundir-se num uníssono espasmodicamente jubiloso e eis que – gelava só de pensar! – de tudo isso se destacava o grito de Úrsula violentada – assim imaginava em minha invejosa parcialidade – pelas costas, e ao mesmo tempo o grito de vulgar triunfo do tenente, mas talvez – e aqui meu ciúme atingia o delírio – esses gritos – dele e dela – podiam também não ser tão diferentes e dissonantes, somar-se num único grito de perfeito prazer, distinguindo-se do grito desfeito e desesperado que brotaria de meus lábios.
Nesse alternar de esperanças e apreensões prosseguia em minha quda, sem, no entanto, deixar de escrutar as profundidades do espaço para ver se alguma coisa anunciava uma alteração, atual ou futura, de nossas condições. Uma ou duas vezes consegui avistar um universo, mas era muito distante e se mostrava minúsculo, pequeníssimo, muito distante à esquerda ou à direita; tive tempo apenas de distinguir um certo número de galáxias como pontinhos luminosos agrupadas em amontoados sobrepostos que giravam com um débil zumbido, e já tudo havia se desvanecido da forma como surgira, para cima ou para o lado, a ponto de ficar em dúvida se não teria sido uma ilusão de vista.
- Olhe lá! Olhe lá! Lá está um universo! Olhe só! Ali tem alguma coisa! – gritava a Úrsula H’x faendo um sinal naquela direção, mas ela, a língua serrada entre os dentes, estava toda entregue a acariciar a pele lisa e lustrosa das pernas à procura de raríssimos e quase imperceptíveis pêlos supérfluos que ela erradicava com um seco arrancar das unhas em pinça, e a única indicação de que tivesse compreendido meu sinal era a maneira com que estendia uma das pernas para cima, como para desfrutar – poderia dizer-se – com sua metódica inspeção um pouco da luz que reverberava daquele longínquo firmamento.
Inútil citar o desdém que o tenente ostentava naqueles casos em relação ao que eu podia ter descoberto: dava de ombros – o que lhe ocasionava um sobressair das dragonas, do talabarte e das condecorações de que estava inutilmente arreado – e virara-se par ao lado oposto rindo à socapa. Ao passo que em outras vezes (quando estava certo de que eu olhava para o outro lado) era ele que, para despertar a curiosidade de Úrsula (e então era minha vez de rir, vendo que ela, como resposta, revolvia-se sobre si mesma numa espécie de cabriola virando para ele o traseiro: um gesto indubitavelmente pouco respeitoso embora belo de se ver, tanto que eu, depois de me alegrar vendo nisso uma humilhação para o meu rival, me surpreendia a invejá-lo como se se tratasse de um privilégio), indicava um esmaecido ponto que fugia pelo espaço, gritando:
- Veja lá! Um universo! Enorme! Eu vi! É mesmo um universo!
Não digo que mentia: afirmações do gênero, pelo que sei, podiam ser tanto verdadeiras quanto falsas. Que vez por outra passávamos ao largo de um universo, estava provado (ou antes, que um universo passava ao largo em relação a nós), mas não se podia dizer que havia vários universos espalhados pelo espaço ou se era sempre o mesmo universo como qual continuávamos a cruzar girando numa misteriosa trajetória, ou se ao contrario não havia universo algum e aquilo que acreditávamos ver era a miragem de um universo que talvez tivesse um dia existido e cuja imagem continuava a ricochetear pelas paredes do espaço como o ribombar de um eco. Mas podia ainda ser que os universos sempre estivessem ali, fixos em torno de nós, e nem sonhassem mover-se, e nós tampouco nos movíamos, e tudo estava parado para sempre, sem tempo, numa escuridão pontilhada apensas de súbitas cintilações quando alguma coisa ou alguém conseguia por um momento destacar-se daquela morna ausência e esboçar a aparência de um movimento.
Hipóteses todas dignas de serem levadas em consideração, e que me interessavam apenas naquilo que diziam respeito à nossa queda e à possibilidade de ao menos conseguir tocar Úrsula H’x. em resumo, ninguém sabia de nada. E então, por que aquele presunçoso Fenimore assumia às vezes uns ares de superioridade, como se estivesse certo de seu ponto de vista? Havia percebido que o método mais seguro de me irritar era fingir que tinha com Úrsula H’x uma familiaridade de longa data. A certo ponto Úrsula se punha a descer requebrando, com os joelhos juntos, deslocando o peso do corpo ora para lá ora para cá, como se ondulando nem ziguezague cada vez mais amplo: tudo para espantar o tédio  daquela queda interminável. O tenente então punha-se também a ondular, procurando acompanhar o ritmo dela, como se seguisse a mesma pista invisível, até mesmo como se dançasse ao som de uma mesma música só audível pelos dois, que ele ia até o ponto de fingir que assoviava, e pondo nisso, ele apensas, uma espécie de subentendido, de alusão a uma brincadeira entre velhos companheiros de boemia. Era tudo um blefe, imaginem se eu não sabia, mas bastava-me meter na cabeça a ideia de um encontro entre Úrsula H’x e o tenente Fenimore já pudesse ter ocorrido, quem sabe quanto tempo antes, na origem de suas trajetórias, para que tal idéia me provocasse um travo doloroso, como uma injustiça cometida conta mim. Refletindo-se, porém: se Úrsula e o tenente tivessem em alguma época ocupado o mesmo ponto do espaço, era indicio de que suas respectivas linhas de queda se puseram a distanciar-se e presumivelmente continuavam se distanciando. Ora, naquele lento mas contínuo distanciar-se do tenente, nada mais fácil que Úrsula se aproximasse de mim; portanto, o tenente tinha poucas razões para se envaidecer de suas antigas interseções: era para mim que o futuro sorria.
O raciocínio que me levava a essa conclusão não bastava para tranqüilizar-me interiormente: a eventualidade de que Úrsula H’x já tivesse encontrado do tenente era em si uma ofensa que, se me tivesse sido feita, jamais poderia ser resgatada. Devo acrescentar que passado e futuro eram para mim termos vagos, entre os quais não conseguia fazer distinção: minha memória não ia além do presente interminável de nossa queda paralela, e o que podia ter acontecido antes, dado que não se podia recordar, pertencia ao mesmo mundo imaginário do futuro, e com o futuro se confundia. Assim eu podia também supor que, se alguma vez duas paralelas haviam partido do mesmo, ponto, estar teria de ser a linhas que seguíamos eu e Úrsula H’x (neste caso era a nostalgia de uma identidade perdida que nutria o meu ansioso desejo de encontrá-la); mas eu relutava em dar crédito a tais hipóteses, porque podiam implicar um distanciamento progressivo entre nós e talvez um aproamento nos braços engalanados do tenente Fenimore, mas sobretudo porque só sabia sair do presente imaginando um presente diverso, e nada além disso me importava.
Talvez fosse esse o segredo: identificar-se tanto no próprio estado da queda a ponto de conseguir compreender que a linha seguida ao cair não era aquela que parecia ser mais outra, ou seja, conseguir mudar aquela linha da única forma como poderia ser mudada, quer dizer, fazendo-a tornar-se a que verdadeiramente sempre havia sido. Mas não foi concentrando-me em mim mesmo que me veio essa idéia, e sim observando quanto Úrsula H’x era bela mesmo vista por detrás, e notando, no momento em que passávamos à vista de um sistema de constelações extremamente distante, um arqueamento da coluna e  uma espécie de estremecimento do traseiro, não tanto do traseiro em si, mas um deslizamento externo que parecia comprimir o traseiro provocando uma reação não desfavorável do próprio traseiro. Bastou essa fugas impressão para fazer-me encara a situação de um modo novo: se era verdade que o espaço com algo dentro era diferente do espaço vazio porque a matéria provoca nele uma curvatura ou tensão que obriga todas as linha nele contidas a se estenderem ou a se curvarem, então a linha que cada um de nós seguia era uma rela apenas no modo em que uma reta pode ser uma reta, ou seja, deformando-se na medida em que a límpida harmonia do vazio global se deforma pelo incomodo da matéria, isto é, enroscando-se em torno daquele nódulo ou verruga ou excrescência que é o universo no meio do espaço.
Meu ponto de referencia era sempre Úrsula e de fato uma certa maneira de avançar como que voltejando podia tornar mais familiar a idéia de que nossa queda era um aparafusar e desaparafusar numa espécie de espiral que às vezes se contraía, às vezes se alargava. Mas Úrsula tomava essas debandadas – olhando-se bem – ora num sentido ora noutro, e assim o desenho que traçávamos era mais complicado, o universo era, pois, considerado não uma intumescência grosseira li plantada como um nabo, mas uma figura angulosa e pontiaguda em que a cada reentrância ou saliência ou facetamento correspondiam cavidades e bossagens e denteações do espaço e das linhas por nós percorridas. Esta era, no entanto, ainda uma imagem esquemática, como se tivéssemos de lidar com um solido de paredes lisas, uma compenetração de poliedros, um agregado de cristais; na verdade o espaço no qual nos movíamos era todo ameado e perfurado, com agulhas e pináculos que se irradiavam de todas as partes, com cúpulas e balaústres e peristilos, com bífores e trifórios e rosáceas, e nós, embora nos parecesse cair sempre e direto para baixo, na realidade escorríamos nas bordas de modinaturas e frisos invisíveis, como formigas que para atravessar uma cidade seguem percursos não traçados sobre o pavimento das ruas mas ao longo das paredes e tetos e das cornijas e lustres. Ora, falar em cidade é ter ainda em mente figuras de qualquer forma regulares, com ângulos retos e proporções simétricas, ao passo que em vez disso devemos ter sempre presente como o espaço se recorta em torno de aça cerejeira e de cada folha de cada ramo que se move ao vento, e de cada borda serrilhada de cada folha, e mesmo como se modela em torno das nervuras de cada folha, e da rede de nervuras no interior de cada folha e sobre os ferimentos de que as flechas de luz as crivam a cada instante, tudo se imprimindo em negativo na pasta do vazio, de modo que não existe nada que não tenha deixado lá seu vestígio, todos os vestígios possíveis de todas as coisas possíveis e, juntamente, cada transformação desses vestígios instante por instante, de modo que a verruguinha que cresce embaixo do nariz de um califa ou a bolha de sabão que pousa sobre o seio de uma lavadeira modificam a forma geral do espaço em todas as suas dimensões.
Bastou-me compreender que o espaço era feito dessa maneira para me dar conta de que nele se formavam certas cavidades macias e acolhedoras como redes onde eu poderia me encontrar unido a Úrsula H’x e balançar-me junto dela mordendo-nos mutuamente pelo corpo inteiro. As propriedades do espaço eram tais que uma paralela prendia de um lado e outra de outro; eu, por exemplo, me precipitava dentro de uma daverna tortuosa ao passo que Úrsula H’x era sugada por um subterrâneo que se comunicava com aquela mesma caverna de modo que nos encontrávamos a rolar juntos sobre um tapete de algas numa espécie de ilha subespacial enlaçando-nos em todas as posturas e cambalhotas possíveis, até que a determinado momento nossas duas trajet´roas retomavam sua diração retilínea e prosseguiam cada uma por si como se nada tivesse acontecido.
A granulosidade do espaço era porosa e acidentada, com fendas e dunas. Atentando bem, podia perceber o quanto o percurso do tenente Fenimore passava pelo fundo de um cânion estreito e tortuoso; então me colocava no alto de um barraco e no momento exato me atirava em cima dele tratando de atingi-lo com todo o meu peso sobre as vértebras cervicais. O fundo desses precipícios do vácuo era pedregoso como o leito de um reio seco, e o tenente Fenimore ao cair ficara com a cabeça engastada entre dois aguilhões de rocha que afloravam e eu já lhe comprimia um joelho contra o estômago enquanto ele estava a pondo de me esmagar dos dedos nos espinhos de um cacto – ou dorso de um porco-espinho? (em todo o caso, espinhos que correspondem a certas contrações agudas do espaço) – para que eu não conseguisse me apoderar da pistola que lhe havia feito derrubar com um chute. Não sei como fui me encontrar um instante depois com a cabeça afundada na granulosidade sufocante dos estratos onde o espaço cede desmanchando-se em areia; cuspi, aturdido e ofuscado; Fenimore havia conseguido recuperar a pistola; uma bala assoviou em meu ouvido, desviada por uma longa proliferação do vácuo que se elevava em forma de formigueiro. E eu já estava em cima dele com as mãos em sua garganta para estrangulá-lo, quando as mãos se bateram uma contra a outra com um plaf!: nossas vias voltavam a ser paralelas e eu e o tenente Fenimore descíamos mantendo nossa distancia habitual e voltando as costas um para o outro como duas pessoas que fingem jamais se terem visto ou conhecido.
O que podíamos considerar apensas Omo linhas retas unidimensionais eram de fato semelhantes a linhas de uma escrita cursiva traçadas numa página branca por uma pena que transfere palavras e trechos de frase de uma linha para outra com inserções e remissões na pressa de terminar uma exposição conduzida mediante aproximações sucessivas e sempre insatisfatórias, e assim seguíamos, eu e o tenente, Fenimore, encondendo-nos por trás dos ilhoses dos “l”, principalmente os “l” de “paralelas”, para atirar ou proteger-nos das balas e eu me fingia de morto e esperava que Fenimore passasse para dar-lhe uma rasteira e arrastá-lo pelos pés fazendo-lhe bater com o queixo contra o fundo dos “v” e dos “u” e dos “m” e dos “n” que escritos em cursivo todo igual tornavam-se um sacolejante suceder-se de buracos no pavimento como, por exemplo, na expressão “universo unidimensional”, para depois abandoná-lo estendido num ponto todo riscado de rasuras e dali erguer-me inteiramente manchado de tinta para correr em direção a Úrsula H’x que queria bancas a esperta infiltrando-se entre as franjas dos “f” que se afinavam até se tornarem filiformes, mas eu a agarrei pelos cabelos e preguei-a num “d” ou num “t” como agora os escrevo na pressa, tão inclinados que se pode deitar em cima deles, depois escavamos um nicho no “g” de “gruta”, uma toca subterrânea que podemos adaptar à vontade às nossas dimensões ou tornar ainda mais recolhida e quase invisível ou ainda colocar em sentido horizontal para estarmos mais confortavelmente deitados. Embora naturalmente essas mesmas linhas em vez de sucessões de letras e de palavras possam muito bem ser desenroladas em seu fio negro e tecidas em linhas retas contínuas paralelas que não significam outra coisas senão elas mesmas em seu contínuo escorrer sem encontrar-se jamais assim como jamais nos encontraremos em nossa queda continua. Úrsula H’x e eu, o tenente Fenimore  e todos os demais.

In: Calvino, Italo. As Cosmicômicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999

20 Dezembro 2011

JOGOS SEM FIM


Italo Calvino
     

Se as galáxias se afastam, a rarefação do universo é compensada pela formação de novas galáxias compostas de matéria que se cria ex novo. Para manter estável a densidade média do universo basta que se crie um átomo de hidrogênio a cada duzentos e cinqüenta milhões de anos para cada quarenta centímetros cúbicos de espaço em expansão. (A essa teoria, chamada de ‘estado estacionário’, se contrapõe outra hipótese segundo a qual o universo teria tido sua origem num momento preciso, após uma gigantesca explosão.)

Eu era criança ainda e já me dava conta, narrou Qfwfq. Conhecia bem os átomos de hidrogênio, um por um, e quando saltava fora um novo eu logo percebia. No meu tempo de infância, para brincar, em todo o universo tínhamos somente átomos de hidrogênio, e passávamos o tempo todo a jogá-los um para o outro, eu e um menino da minha idade que se chamava Pfwfp.
Como era o nosso jogo? Já quase disse. Sendo o espaço curvo, fazíamos os átomos deslizarem ao longo de sua curva, como esferas, e quem mandasse mais longe o seu átomo ganhava. Ao dar o impulso ao átomo era preciso calcular bem os efeitos, as trajetórias, saber aproveitar os campos magnéticos e os campos gravitacionais, se não a bolinha acabava saindo da pista e era eliminada do jogo.
As regras eram as de costume: com um átomo podia-se bater em outro átomo e mandá-lo para a frente, ou então expulsar o átomo do adversário. Naturalmente tinha-se o cuidado de não jogar com muita força, porque da colisão de dois átomos de hidrogênio, tic!, podia-se originar um átomo de deutério, ou mesmo de hélio, e aqueles se tornavam átomos perdidos para a partida: além disso, se um deles era do adversário, devia-se ainda reembolsá-lo.
Vocês sabem como é feita a curvatura do espaço: uma bolina gira gira e num belo instante resvala pelo declive e se distancia de tal modo que não se pode mais alcançá-la. Por isso, na continuidade do jogo, o número de átomos disponíveis diminuía sucessivamente, e quem ficasse primeiro sem átomos perdia a partida.
Mas eis que, exatamente no momento decisivo, começavam a surgir átomos novos. Entre um átomo novo e um usado sabe-se que há uma boa diferença: os novos eram lustrosos, claros, fresquíssimos, com que úmidos de orvalho. Estabelecemos novas regras: que um dos novos valia três dos velhos; que, mal os novos se formasse, deviam ser repartidos entre nós irmãmente.
Assim nosso jogo não terminava junca, nem nos parecia cansativo pois a cada vez que nos defrontávamos com átomos novos nos parecia que também o jogo era novo e aquela era nossa primeira partida.
Depois, com o correr do tempo, dá-lhe que dá-lhe, o jogo se tornou mais brando. Já não se viam átomos novos: os que se perdiam não eram mais substituídos, nossos lances foram ficando fracos, hesitantes, por medo de perder as poucas peças que nos restavam disponíveis, naquele espaço liso e nu.
Pfwfp também havia mudado: andava distraído, se perdia, não se apresentava quando era a sua vez de jogar, eu o chamava e ele não respondia, só reaparecia cerca de meia hora depois.
- Então, é a sua vez agora, que está fazendo, não quer jogar mais?
- Claro que quero, não se irrite, vou jogar.
- Escute, se você não está ligando para o jogo, vamos acabar com a partida.
- Ora, você cria casos porque está perdendo.
Era verdade: eu estava ficando sem átomos, enquanto Pfwfp, sabe-se lá como, sempre tinha um de sobra. Se não surgissem átomos novos para podermos dividi-los, eu não tinha mais esperanças de superar a vantagem.
Mal Pfwfp se afastou novamente, eu o segui na ponta dos pés. Enquanto estava em minha presença parecia vaguear distraído, assoviando; mas uma vez fora de meu raio de visão começava a trotar no espaço com um andar decidido, como alguém que tem em mente um programa bem definido. E qual era esse programa – esse seu ardil, com verão – eu não tardei a descobrir: Pfwfp conhecia todos os lugares onde se formavam os átomos novos, e de vez em quando andava por ali para colhê-los in loco, assim que acabavam de se formar, e em seguida os escondia. Por isso, não lhe faltavam nunca átomos para jogar!
Mas antes de pô-los em jogo, trapaceiro contumaz que era, tratava de fazê-los passar por átomos antigos, esfregando um pouco a película dos elétrons até torná-la gasta e opaca, para dar-me a impressão de que se tratava de um átomo antigo seu encontrado no bolso por acaso.
Isso não era tudo: fiz um cálculo rápido dos átomos jogados e percebi que eram apenas uma parte daqueles que ele roubava e escondia. Estava fazendo às escondidas uma reserva de hidrogênio? Para que fim? Que teria em mente? Uma suspeita ocorreu-me: Pfwfp queria construir um universo por conta própria, novinho em folha.
A partir daquele momento, não tive paz: devia pagar-lhe com a mesma moeda. Poderia imitá-lo: agora que sabia os lugares, chegar lá adiantado alguns minutos e apoderar-me dos átomos recém-nascidos, antes que ele viesse meter as mãos neles! Mas teria sido simples demais. Queria fazê-lo cair numa cilada digna de sua perfídia. Antes de mais nada, comecei a fabricar átomos falsos: enquanto ele estava empenhado em suas incursões predatórias, eu no meu esconderijo secreto moía, dosava e aglutinava todo o material de que dispunha. Na verdade, esse material era bastante limitado: radiações fotoelétricas, limalha de campos magnéticos, alguns neutrinos perdidos por ali; mas à força de amassar essas coisas, umedecendo-as com saliva, consegui fazê-las formar um todo. Em suam, preparei alguns corpúsculos que, se se observasse com atenção, via-se facilmente que não eram de fato de hidrogênio nem de outro elementeo específico, mas para alguém que passasse às pressas como Pfwfp, agarrando-os e metendo-os no bolso com um movimento furtivo, podiam parecer hidrogênio autêntico e novinho em folha.
Assim, enquanto ele não suspeitava de nada ainda, precedi-o na busca. Havia marcado muito bem os lugares na mente.
O espaço é curvo em toda a parte, mas há pontos em que é mais curvo que em outros: umas espécies de bolsões ou estrangulamentos ou nichos, em que o vácuo se enrola em si mesmo. É nesses nichos que, com um leve tilintar, a cada duzentos e cinqüenta milhões de anos, se forma, como a pérola entre as conchas da ostra, um luzidio átomo de hidrogênio. Eu passava, guardava o átomo no bolso e em seu lugar depositava o falso. Pfwfp não percebia nada: predador, glutão, enchia os bolsos com aquelas varreduras, enquanto eu acumulava todos os tesouros que o universo andava incubando em seu seio.
A sorte mudou em nossas partidas: eu sempre tinha átomos novos para atirar, ao passo que os de Pfwfp falhavam. Por três vezes tentou atirá-los e por três vezes os átomos se esmigalharam como se achatados no espaço. Então Pfwfp procurava todas as desculpas para anular a partida.
- Vamos lá – eu o acossava -, se você não jogar, a partida é minha.
E ele:
- Não vale, quando um átomo se gasta a partida é anulada e tem-se que recomeçar do princípio. – Era uma regra inventada por ele naquele momento.
Eu não lhe dava trégua, dançava ao redor dele, pulava a cavalo em suas costas e cantava:
- Joga joga agora
se não joga, fora!
pois se eu jogo é fogo
vou ganhar o jogo.
- Chega – disse Pfwfp -, vamos mudar de brincadeira.
- Pois bem! – disse eu. – Por que não brincamos de atirar galáxias para o alto?
- Atirar galáxias? – De repente Pfwfp iluminou-se de contentamento. Eu bem que posso! Mas você... você não tem galáxia alguma!
- Tenho, sim.
- Eu também!
- Então vamos ver quem joga mais alto!
E todos os átomos novos que eu tinha escondido, atirei-os ao espaço. A princípio pareciam dispersar-se, depois se condensaram como numa nuvem tênue, e a nuvem cresceu, cresceu, e em seu interior se formaram condensações incandescentes que rodavam, rodavam e em certo ponto se transformaram numa espiral de constelações  jamais vistas que pairava abrindo-se em esguicho e fugia, fugia, enquanto eu a segurava pela cauda correndo. Mas agora não era eu que fazia voar a galáxia, era a galáxia que me fazia voar, agarrado à sua cauda; ou seja, não havia mais alto nem baixo, mas só espaço que se dilatava e a galáxia no meio a se dilatar também, e eu seguro ali a fazer caretas na direção de Pfwfp distante já milhares de anos-luz.
Pfwfp, ao meu primeiro movimento, apressou-se a tirar para fora todo o seu butim e a lançá-lo no espaço acompanhando-o de um movimento balanceado de quem espera ver abrirem-se no céu as espiraris de uma galáxia interminável. Em vez disso, nada. Houve um crepitar de radiações, um relampejar desordenado, e logo tudo se extinguiu.
- Só isso? – gritava a Pfwfp.
E ele invectivava contra mim em resposta, verde de raiva:
- Você vai ver, seu Qfwfq safado!
Mas enquanto isso eu e minha galáxia voávamos entre milhares de outras galáxias, e a minha era a mais nova, invejada por todo o firmamento, brilhante como era de hidrogênio jovem, de juveníssimo berílio e de carbono infante. As galáxias anciãs fugiam de nós devoradas de inveja, e nós saltitantes e soberbos delas fugíamos, ao vê-las assim tão antiquadas e graves. Naquela fuga recíproca, acabamos por atravessar espaços cada vez mais rarefeitos e desimpedidos: e eis que vi em meio ao vácuo despontar aqui e ali como que borrifos incertos de luz. Eram tantas outras galáxia, formadas de matéria que acabara de surgir, galáxias já mais novas que a minha. Depressa o espaço voltava a tornar-se apinhado e denso como a parreira antes da vindima, e voávamos em fuga, a minha galáxia fugindo das mais novas como das anciãs, jovens e anciãs fugindo de nós. E passamos a voar por céus vazios, que logo tornavam a se povoar, e assim por diante.
Num desses repovoamentos, eis que ouço:
- Afwfq, agora você me paga, traidor!
E vejo uma galáxia novíssima voar em nosso encalço, e inclinado sobre a ponta da espiral, a esbravejar contra mim ameaças e insultos, meu antigo companheiro de jogos, Pfwfp.
Começou a perseguição. Ali onde o espaço apresentava uma subida, a galáxia de Pfwfp, jovem e ágil, ganhava terreno, mas onde no espaço havia uma descida a minha mais pesada recuperava a vantagem.
Na corrida, sabe-se qual é o segredo: tudo está na maneira de se fazerem as curvas. A galáxia de Pfwfp tendia a estreitá-las, ao passo que a minha as alargava. Alarga aqui, alarga ali, eis que acabamos por ser projetados para fora da margem do espaço, com Pfwfp atrás. Continuamos a corrida como se faz em casos semelhantes, ou seja, criando espaço à nossa frente à medida que avançamos.
Assim à frente havia o nada e às minhas costas a cara horrenda de Pfwfp que me seguia: em ambas as partes uma vista nada agradável. Contudo preferi olhar para a frente, e então que vejo? Pfwfp, que meu olhar mal acabara de deixar para trás, corria em sua galáxia à minha frente.
- Ah! – gritei. – Agora é minha vez de persegui-lo!
- Como? Disse Pfwfp, não sei bem se atrás de mim ou à minha frente -, eu é que o estou perseguindo!
Volto-me: lá estava Pfwfp sempre nos meus calcanhares. Torno a virar-me para a frente, e lá estava ele a escapar dando as costas para mim. Mas, observando melhor, vi que, diante dessa sua galáxia que me precedia, havia outra, e esta era a minha, tanto é verdade que eu estva montado nela, inconfundível ainda que visto de perfil. E voltei-me para Pfwfp que me seguia, e aguçando a vista vi que a sua galáxia era seguida por outra galáxia, a minha, comigo em cima tal e qual, e aquele u lá naquele exato momento se virava para olhar para trás.
E, assim, por trás de cada Qfwfq havia um Pfwfp e atrás de cada Pfwfp um Qfwfq e cada Pfwfp seguia um Qfwfq e Ra por ele seguido e vice-versa. A distancia entre nós ora se estreitava ora se alongava, mas agora já estava claro que um jamais alcançaria o outro nem o outro o um. Havíamos perdido todo o gosto de brincar de perseguição e além do mais já não éramos crianças, mas doravante não nos restava outra coisa para fazer.


In: Calvino, Italo. As Cosmicômicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 

Alimento para os Olhos: tomates


19 Dezembro 2011

TUDO NUM PONTO


 Italo Calvino



         Por meio dos cálculos iniciados por Edwin P. Hubble a velocidade de afastamento das galáxias, pode-se estabelecer o momento em que toda a matéria do universo estava concentrada num único ponto, antes de começar a expandir-se no espaço. A “grande explosão” (big-bang) de que se originou o universo teria ocorrido há cerca de quinze ou vinte bilhões de anos.


         Compreende-se que todos estivéssemos ali, disse o velho Qfwfq, e onde mais poderíamos estar? Ninguém sabia ainda que pudesse haver o espaço. O tempo, idem; que queriam que fizéssemos do tempo, estando ali espremidos como sardinha em lata?
         Disse “como sardinha em lata” apenas para usar uma imagem literária; na verdade, não havia espaço nem mesmo para se estar espremido. Cada ponto de cada um de nós coincidia com cada ponto de cada um dos outros em um único ponto, aquele onde todos estávamos. Em suam, nem sequer nos importávamos, a não ser no que respeita ao caráter, pois, quando não há espaço, ter sempre entre os pés alguém tão antipático quando o ser. Pbert Pberd é a coisa mais desagradável que existe.
Quantos éramos? Bom, nunca pude dar-me conta nem sequer aproximadamente. Para poder contar, era preciso afastar-se nem que fosse um pouquinho um dos outros, ao passo que ocupávamos todos aquele mesmo ponto. Ao contrário do que possa parecer, não0 era uma situação que pudesse favorecer a sociabilidade; sei que, por exemplo, em outras épocas os vizinhos costumavam freqüentar-se; ali, ao contrario, pelo fato de sermos todos vizinhos, não nos dizíamos sequer bom-dia ou boa-noite.
Cada qual acabava se relacionando apenas com um numero restrito de conhecidos. Os que recordo são principalmente a sra. Ph(i)Nko, o seu amigo De XuaeauX, uma família de imigrantes, uns certos Z’zu, e o Sr. Pbert Pberd,  a quem já me referi. Havia ainda uma mulher da limpeza – “encarregada da manutenção”, como era chamada -, uma única para todo o universo, dada a pequenez do ambiente. Para dizer a verdade, não havia nada para fazer durante o dia todo, nem ao menos tirar o pó – dentro de um ponto não pode entrar nem mesmo um grão de poeira -, e ela se desabafava em mexericos e choradeiras constantes.
Com estes que enumerei já éramos bastantes para estarmos em superlotação; juntem a isso tudo quanto devíamos ter ali guardado: todo o material que depois iria servir para formar o universo, desmontado e concentrado de modo que não se podia distinguir o que em seguida iria fazer parte da astronomia (como a nebulosa Andrômeda)  daquilo que era destinado à geografia (por exemplo os Vogues) ou à química (como certos isótopos de berílio). Além disso, tropeçávamos sermpe nos trastes da família Z’zu, catres, colchões, cestas; esses Z’zu, se não estávamos atenso, com a desculpa de que eram uma família numerosa, agiam como se no mundo existissem apenas eles: pretendiam até mesmo estirar cordas através do ponto para nelas estender a roupa branca.
Também outros tinham lá sua implicância com os Z’zu, a começar por aquela definição de “imigrante”, baseada na pretensão de que, enquanto estavam ali primeiro, eles haviam chegado depois. Que isso era um preconceito sem fundamento, a mim me parecia claro, dado que não existia nem antes nem depois e nem lugar nenhum de onde imigrar, mas havia quem sustentasse que o conceito de “imigrantes” podia ser entendido em seu estado puro, ou seja, independentemente do espaço e do tempo.
Era uma mentalidade, digamos, restrita, a que tínhamos então, mesquinha. Culpa do ambiente em que nos havíamos formado. Uma mentalidade que permaneceu no fundo de todos nós, reparem: continua até hoje a aflorar, se por acaso dois de nós se encontram – na parada de ônibus, num cinema, num congresso internacional de dentistas – e se põem a recordar aqueles tempos. Cumprimentamo-nos – às vezes é alguém que me reconhece, outras sou eu que reconheço alguém -, e logo começamos a perguntar por um e por outro (mesmo se um se recorda apenas de alguns dos lembrados pelo outro), e assim voltamos a nos interessar pelas querelas dos tempos passados, as aleivosias, as difamações. Até o momento em que se menciona a sra. Ph(i)Nko – todas as conversas acabam sempre chegando lá -, e então, de repente, todas as mesquinhezas são deixadas de lado, e nos sentimos elevados por uma comoção generosa e abençoada. A sra. Ph(i)Nko, a única que não foi jamais esquecida por nenhum de nós e de quem todos sentimos saudades. Onde andará? Há muito perdi as esperanças de encontrá-la: a sra. Ph(i)Nko, aqueles seios, aquelas ancas, seu robe alaranjado, jamais a encontraremos, nem neste nem em qualquer outro sistema de galáxias.
Fique bem claro que nunca me convenceu a teoria de que o universo, após atingir um extremo de rarefação, voltará a condensar-se, e que, portanto, iremos nos reencontrar naquele ponto único para depois recomeçarmos tudo de novo. E, no entanto, quantos dentre nós contam apenas com isso e continua a fazer projetos par ao dia em que estivermos todos novamente reunidos? No mês passado, entrei no café ali da esquina e quem é que encontro? O sr. Pbert Pberd.
- Que anda fazendo? Que bons ventos o trazem?
Fico sabendo que tem uma firma de representação de material plástico, em Pavia. Continua o mesmo, com seu dente de prata e seus suspensórios floridos.
- quando voltarmos para lá – ele me diz, em voz baixa -, vamos ter de tomar cuidado para que desta vez certas pessoas fiquem de fora... Está me entendendo? Os Z’zu...
Deu-me vontade de dizer que já ouvira aquela história da boca de mais alguns de nós, que no fim acrescentavam: “Bem entendido... o senhor Pbert Pberd...”.
Para não me deixar levar por esse caminho, apressei-me a perguntar-lhe:
- E a senhora Ph(i)Nko, acha que voltaremos a encontrá-la?
- Ah, sim... Ela, sem dúvida... – fez ele enrubescendo.
Para todos nós a esperança de retornar ao ponto inicial é principalmente a de nos encontrarmos novamente junto à será. Ph(i)Nko. (Até mesmo para mim, que não creio nisso.) E naquele café, côo acontece sempre, nos pusemos a revocá-la, comovidos, e mesmo a antipatia crônica do Sr. Pbert Pberd se esvanecia de tais recordações.
O grande segredo da sra. Ph(i)Nko é que nunca despertou ciúmes entre nós. E nem mesmo mexericos. Que ia para a cama com seu amigo, o ser. De XuaeauX, era mais do que notório. Mas num ponto, se há uma cama, essa ocupa todo o ponto; logo não se tratava de ir para a cama, mas de estar nela, pois quem quer que estivesse no ponto estava igualmente na cama. Em conseqüência, era inevitável que ela fosse para a cama também com todos nós. Se fosse outra pessoa, quem sabe quantas coisas lhe diriam pelas costas. A mulher da limpeza era sempre a primeira a dar livre curso às maledicências e os outros não se faziam de rogados para imitá-la. Sobre os Z’zu, já ao contrário, quantas coisas horríveis tínhamos de ouvir: pai filhas irmãos irmãs mãe tias, ninguém escapava às insinuações mais sórdidas. Com ela, no entanto, era diferente: a felicidade que dela me vinha era ao mesmo tempo a de ocultar-me puntiforme nela e a de protegê-la puntiforme em mim numa contemplação vici9osa (dada a promiscuidade do convergir puntiforme de todos para ela) e ao mesmo tempo casta (dada a impenetrabilidade puntiforme dela). Em suma, que eu poderia pedir mais?
E tudo isso, assim como era verdadeiro para mim, também o era para cada um dos demais. E para ela: continha e era contida com uma alegria igual, e nos acolhia, amava e coabitava com todos igualmente.
Se tudo estava tão bem assim, tão bem, é que qualquer coisa de extraordiabio deveria acontecer. Bastou que a certo momento ela dissesse:
- Pessoal, se tivesse um pouco mais de espaço, como gostaria de preparar um tagliatelle!
E naquele momento todos pensamos que teriam ocupado os seus roliços braços movendo-se para frente e para trás com o rolo a adelgaçar a massa, o grande volume de peito descendo sobre o grande monte de farinha e de ovos que atulhava a imensa travessa enquanto seus braços amassavam amassavam, brancos e untados de óleo até os cotovelos; pensamos no espaço que haveria de ocupar a farinha, e o grão para fazer a farinha, e os campos para cultivar o grão, e as montanhas das quais descia a água para irrigar os campos, e os pastos para os rebanhos de gado que forneceriam a carne para o molho; no espaço que seria necessário para que o Sol chegasse com seus raios e amadurecesse o grão; no espaço que seria necessário para que a partir das nuvens de gás estelares o Sol se condensasse e inflamasse; na quantidade de estrelas e galáxias e amontoados galácticos em fuga no espaço que teria sido necessário para manter suspensa cada galáxia cada nebulosa cada sol cada planeta, e no momento mesmo em que o pensávamos esse espaço começou, incontidamente, a se formar; no exato momento em que a senhora Ph(i)Nko pronunciava aquelas palavras: "... um tagliatelle, hein, pessoal!", o ponto que continha e a nós todos se expandia numa auréola de distâncias de anos-luz e milhares de anos-luz, e éramos projetados para os quatro cantos do universo (...), e ela se dissolveu não sei em que espécie de energia luz calor, ela, a senhora Ph(i)Nko, aquela que em meio ao nosso fechado mundo mesquinho fora capaz de um impulso generoso, o primeiro, "Ah, pessoal, que tagliatelle eu prepararia!", um verdadeiro impulso de amor geral, dando inicio no mesmo instante ao conceito de espaço, e ao espaço propriamente dito, e ao tempo, e à gravitação universal, e ao universo gravitante, tornando possiveis, milhares e milhares de sóis, de planetas, de campos de trigo e de senhoras Ph(i)Nko, espersas pelos continentes dos planetas batendo a massa com seus braços brancos enfarinhados, untuosos e generosos, enquanto ela se perdia a partir daquele instante, deixando-nos a recordá-la saudosos.

In: Calvino, Italo. As Cosmicômicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 

12 Dezembro 2011

O Efeito da Comida



( conto retirado de Fabulas e Lendas da Índia – Editora Shakti)

                               Durante a luta pela Independência da Índia, nem todos os que ocupavam a cela dos condenados à morte eram criminosos brutais. Raghvir era um jovem refinado e sensível, que sabendo que lhe restavam apenas algumas semanas de vida, voltou-se para os Upanishads e a Gita à procura de conforto. Um Swami tinha permissão de visitá-lo regularmente para lhe dar assistência espiritual em seus últimos dias. O Swami encontrava Raghvir sempre paciente e alegre, receptivo às verdades maravilhosas das escrituras. Conversavam sobre outras coisas também.
                        Mas um dia, quando o Swami chegou, Raghvir estava num estado de espírito muito diferente, cansado, ansioso e infeliz.  Quando perguntou o que perturbava a equanimidade do jovem, Raghvir respondeu:
                             -   Durante estes últimos três dias, tenho sido assombrado por horríveis pensamentos – mais que pensamentos, imagens muito vívidas..... de algo tão terrível que não sei como chegaram até mim.  No entanto, não posso me livrar delas. Não posso dormir direito porque estas cenas horrorosas atormentam-me como pesadelos e, mesmo agora, enquanto estou lhe contando, posso ver a cena toda, concretamente,  diante de meus olhos.
                        Sua aflição era óbvia. E quando Swami perguntou mais, ele continuou:
                       
                        - O Senhor sabe, Swamiji, como eu amava minha mãe – como ela me era querida. E contudo.....vejo-me entrando no pátio de uma pequena casa de tijolos – não é a casa de minha mãe,  porém ela está sentada em um dos quartos que dá para o pátio, escovando seu cabelo. E Swami, vejo-me precipitando sobre ela, segurando-a pelos cabelos e arrastando-a para o pátio, e enfiando-lhe uma grande faca várias vezes. Ela está gritando e lutando, há sangue por toda a parte, e eu continuo a apunhalá-la continuamente!
                        O jovem terminou sua história soluçando e escondeu o rosto, tremendo. O Swami não disse nada, apenas colocou a mão no ombro do rapaz em solidariedade silenciosa, durante um momento. Quando Raghvir ficou mais calmo, o Swami perguntou –lhe, como se fosse mudar de assunto:
-          O quê você comeu nesses últimos dias?
                             -     Oh! Só o que eles nos dão, a coisa usual. Mas talvez eles tenham trocado de cozinheiro, agora a comida parece um pouco mais gostosa  que antes.
                        Quando  o Swami deixou Raghvir, foi direto ao guarda da prisão para conversar um pouco  com ele. Perguntou-lhe:
-          Quem cozinha para os prisioneiros?
O guarda  sorriu e respondeu:
-          Escolhemos um dos prisioneiros para faze-lo. Sabe esta semana arranjamos um verdadeiro cozinheiro. Está aqui porque matou a mãe.
                         E contou, com detalhes, como o sangrento assassinato tinha sido cometido. Era exatamente como Raghvir tinha visto com os olhos de sua mente.
                    O Swami sugeriu suavemente:
                        - Olhe, Raghvir é muito sensível e um excelente sujeito. Você acha que pode conseguir alguma outra pessoa para fazer usa comida?
                        Assim fizeram e Raghvir terminou seus dias em paz.


06 Novembro 2011

A harmonia dos seis sabores

"'Se seu olhar vai e vem sondando minuciosamente os detalhes, sem que o espírito se distraia, as três virtudes estarão automaticamente em sua plenitude e os seis sabores desabrocharão por sim mesmos.'

(...)
Importante também para o equilíbrio das refeições é o uso das cores básicas - amarelo, branco, verde vermelho, preto ou roxo e marrom. Os vegetais coloridos transmitem a alegria dos raios de sol. Sabemos que as plantas captam a luz solar. Através da clorofila, que é considerada um potente energético celular, elas realizam a fotossíntese. Apenas precisamos ter em mente, enquanto cozinhamos ou comemos, que as cores vivas dos legumes e vegetais são a luz do sol penetrando em nós. As cores dos alimentos, além de serem atrativas, sinalizam a existência de substâncias importantes para o organismo e quanto mais colorida for a refeição maior a diversidade de nutrientes e melhor seu valor nutricional."

in: EN, Gyoku. O Zen na Cozinha. São Paulo: Sustentar, 2008